TV
É preciso estar praticamente ligado na rede elétrica para acompanhar o
ritmo de Paulo Gustavo. Em apenas 18 dias, ele e sua equipe conseguiram
deixar prontos os 13 episódios de “220 volts”, série protagonizada pelo
humorista que o Multishow estreou no dia 25 de outubro, às 22h30m. Para
dar conta do grande volume de cenas em um curto espaço de tempo, as
gravações duravam cerca de 12 horas diariamente. Mas o cansaço de todos
era driblado pelo clima agradável no set, que assim permaneceu até o
último dia de gravação, acompanhado pela Revista da TV. Em grande parte,
o bem-estar nos bastidores se deu graças ao próprio Paulo Gustavo, que
fala pelos cotovelos e não perde nem uma piadinha.
- Valeu, vou agora ali pegar umas “mulezinha” – despede-se ele, ao
fim da entrevista, já entrando no clima do Playboy, personagem que
interpretaria na sequência seguinte.
Famoso nos palcos com os espetáculos “Hiperativo” e “Minha mãe é uma
peça”, o ator estreia como protagonista na TV, embora não seja um
estranho na tela: fez diversas participações, mas ficou conhecido do
grande público ao interpretar Renée, o hilário cabelereiro na série
“Divã”, na Globo (mesmo papel que já interpretara no filme homônimo).
Agora, Paulo leva elementos de suas peças para a série, num roteiro que
divide com Felipe Braz, seu parceiro de longa data nos textos.
- O “220 volts” nasceu da peça “Hiperativo”. A ideia é fazer tudo que
eu faço no palco virar dramaturgia, misturando o stand-up com esquetes.
Terei alguns papéis fixos, como a dona Hermínia, de “Minha mãe é uma
peça”, a Senhora dos Absurdos, que eu faço na internet, o Guto e o Sem
Noção, além de outros que vão surgir ao longo dos episódios como o
Playboy – explica o ator, que na trama conta com a atriz Flávia Reis
para interpretar a personagem Rita.
Com temas variados que vão de fama a saúde, passando por viagens e
esportes, a série conta também com uma diversidade de locações. Além de
academias e bares, até a casa onde Paulo vivia em Itaipu, em Niterói,
serviu de cenário para a moradia de dona Hermínia e para o quarto do Sem
Noção.
No primeiro episódio, o ator fala sobre seus medos: avião, espíritos e
doença. Além das sequências de stand-up gravadas num teatro e dos
esquetes, ele ainda passou por uma maratona de entrevistas com as
pessoas nas ruas do Rio de Janeiro. Paulo bateu perna no Centro, em
Ipanema e na Lagoa para recolher a opinião do público sobre cada tema
desenvolvido na atração. E, ao fim de cada capítulo, o bate-papo com os
pedestres será mostrado no ar.
Mas o jeito espontâneo do humorista, ao mesmo tempo em que é o grande
trunfo e diferencial do programa, transforma-se na maior dificuldade
enfrentada pelo diretor André Pellenz. Ele conta que trazer o clima da
peça de teatro para um veículo tão diferente como a TV lhe exigiu
bastante:
- Discutimos muito o tom da série. Nossa preocupação era que ficasse
over. O “220 volts” trabalha com muitas linguagens diferentes. É
dramaturgia, stand-up, povo falando… É enlouquecedor para o diretor.
Minha função era exatamente organizar as ideias sem podar os artistas.
Paulo e Felipe são muito dinâmicos, têm uma cabeça criativa. Tinha que
dar uma linguagem de TV sem tentar enquadrá-los num modelo careta.
Para fazer a empreitada dar certo, André diz que buscou referências
em outros programas que utilizassem essa mistura de formatos e tivessem
um tipo de comédia similar à exercitada por Paulo. O diretor cita, por
exemplo, “The Ben Stiller show”, a atração de humor um tanto obscura
apresentada no início dos anos 90 pelo hoje famoso astro de Hollywood, e
o grupo inglês Monty Python, “inspiração para todos os diretores de
comédia”.
O trabalho, de fato, não é dos mais fáceis. Paulo não para de ter
ideias durante o processo. Uma das sequências realizadas no último dia
de gravação nem estava no roteiro do diretor.
- Tá vendo? Essa, por exemplo, é nova, foi criada há poucos dias. Mas
é muito boa – elogia Pellenz, pouco antes de começar a rodar a cena na
qual o protagonista interpreta um garçom que se mete na conversa de um
casal num bar.
O personagem, aliás, é ligeiramente parecido com o seu intérprete.
Ele mesmo diz que vive dando pitacos em qualquer coisa que envolva seus
trabalhos e adora estar a par de absolutamente tudo o que acontece.
- Eu me meto mesmo. Faltou dinheiro, quero abrir a carteira. Quando
viajo, fico ligando para as bilheterias para saber se o teatro lotou e
como está a venda de ingressos – explica.
Em outra cena, o ator leva um copo d’água na cara ao viver Playboy, o
rapaz fortão que azucrina a vida de mocinhas incautas na boate. Uma
segunda camisa igual à usada por ele fica a postos, para o caso de ser
necessário repetir o “banho”. Grande parte da sequência é completamente
improvisada por Paulo, que arranca risadas de todos os presentes no set.
Apesar de um pequeno problema – a máquina de fumaça solicitada pelo
diretor estava quebrada -, todos gostam do resultado.
Já passam das 20h30m e a equipe, trabalhando desde cedo, dá sinais de
cansaço. Mas o ator nem parece ter passado o dia trabalhando. No
intervalo, continua com suas histórias, faz piada e, depois de uma delas
envolvendo a cantora Amy Winehouse, emenda logo: “Ih, gente, vou parar
com esse assunto, tenho medo de espírito”.
Fonte: O globo