• "poesia":
  • 17.1.14

    POESIA: 2013 me rendeu 2 poemas




    DOMÍNIO REMOTO de OUTRAS NOÇÕES e ESTADOS (DRONE)

    Cadê o veículo aéreo revelador do mistério
    de onde está o petróleo, de quem é o Império?

    Na Amazônia tem minério
    e mineral no Pantanal

    D.R.O.N.E. é um caso sério,
    como ficar zen?

    Explodem eu, você e até o
    Chen Guangcheng




    COMETA PAZ E AMOR LIVRE

    Entre no planeta,
    na maledicência dos que não querem a coexistência

    E na ação, na letra
    brilhe, exploda e inverta
    a realidade tensa






    11.5.12

    Marrakech


    O nome soa estranho a qualquer um, algo fora daqui das Américas o leitor poderia pensar, e até seria se acaso estivéssemos falando de Marrakech, aquela cidade além do atlântico capital por anos do Marrocos, lugar onde o destaque é o comércio e a religião. Mas a Marrakech em questão não se trata de um lugar tão grande, apesar da variedade de pessoas que um dia tiveram não só a sorte, mas também o prazer de frequentá-la. A nossa Marrakech é noturna  e palco de uma diversidade incrível de pessoas. Estamos falando de um bordel masculino que situava no centro histórico da Cidade do México e que possivelmente estaria erguido até hoje se um terremoto não o tivesse atingido. Essa casa durante seu funcionamento (dos finais da década de 70 até 1985) ficou popular pelos seus frequentadores típicos, figuras de uma noitada longa e agitada. Partindo da certeza de que espaços físicos são eternizados pela literatura nada melhor que um poema que guarde as memórias dos dias de loucura das noites mexicanas desse extinto lugar e agora estamos apontando para um poeta Juan Carlos Bautista autor de “Cantar del Marrakech” poema que chegou até ser publicado e apesar de reeditado em 2005 pouco se sabe da distribuição, sendo possível seu conhecimento graças aos críticos. O poema glorifica as travestis, faz saudações aos machos, descreve os michês e as figuras do bordel. Ficaremos com os dois primeiros fragmentos.


    Cantar de Marrakech - Juan Carlos Bautista

     Tradução de Alfredo Fressia

    I
    Atrás de cortinas de nervos e tonturas,
    catedral afundada no sonho
    entre onírias espreitando,
    estava o Marrakech.
    Os caça-níqueis punham seus corvos para voar
    e as loucas,
    de risos lantejoulas,
    encharcavam de olhares o ar.
    As bagunceiras, as meigas,
    as mornas, as azedas:
    nascidas do seu amor medroso
    e do cheiro triste da sodomia.
    Com seus gestos como punhos
    e as mãos cheias de fervor, ladravam:
    virgens urrantes
    de tardes em declive e noites sem trégua,
    estendidas sob o sol baixeiro dos abajures.
    No Marrakech eram soberanas,
    cruzavam as pernas como senhoritas
    e riam como putas.
    Obscuras e alegres como algo que vai morrer.
    Elas,
    as sem vértice,
    com o vinagre sempre na língua
    e a sede
    e a quentura dessa sede.
    Iam ao Marrakech exalando cheiro de portos
    e cidades de noite.
    Rainhas amarelas,
    roxas
    carregadas na cor.
    Rainhas de melancólico fumar
    que fitavam descaradas o peixe dos homens,
    atrás de cílios egípcios e letargias abissínias.
    Cheias de pressentimentos,
    fiéis ao embuste,
    leves e estridentes como plumas,
    passeavam o ódio, a ternura,
    a bunda esplêndida,
    ao acaso das mesas,
    girando com o hábito furioso do inseto.
    Iam ao Marrakech e o chamavam alegremente:
    O Garra.
    O Garrakech ou o Marranech.
    Enfeitiçadas ante esse nome crispado e seu conjuro.
    —Vamos ao Garra, querida.
    Há uma louca que dá voltas.
    Há uma bicicleta que anda sozinha.
    Há um homem que se ajoelha frente a uma pica
    como frente a uma cruz.
    Há esfíncteres que são grandes oradores.
    Há um pulha lambendo a própria empáfia.
    Há um marmanjo com a garganta à meia fúria.
    Há um menino com os olhos fechados.
    Há paredes para lá de verdes.
    Há uma louca que anda sozinha,
    como uma bicicleta sozinha,
    tão só que dá medo.
    —Vamos ao Marrakech, queriiida.
    E as nádegas se enchiam.
    E os cus abriam-se como boquinhas.

    II
    Com a fuça inclinada sobre o peito,
    a careta de fumaça
    e a cerveja a um lado,
    os michês,
    com a braguilha inchada pelo medo,
    vendiam seu lado salobro.
    Anjos suntuosos,
    anjos pérfidos e doloridos,
    gabriéis capitães de lábios arrebentados,
    úmidos como tubérculos
    que nascem gritando da terra
    sua morena brutalidade.
    Rebentos do Senhor e da Satanasa,
    com sua branca flor crescida no ventre
    e o coração açulado pela culpa,
    olhavam de soslaio,
    ungidos de mágoa,
    e sua ereção era uma crueldade refinada.
    Obeliscos que se alçavam contra a ruína da noite,
    corpos duros e ternos,
    com sua luz insidiosa e hábil para o despojamento.
    Anjos contra o instinto
    que cuspiam os escarros na testa do doente
    e no peito de quem guardava,
    ruborizado como uma menina,
    o coração quente e triste.
    Na penumbra do Marrakech
    alçavam os sovacos cheios de resplendor
    e levantavam vôo até alturas de vertigem
    —seu limpo gesto gregoriano.
    —E as loucas começavam a
    rezar.

    25.3.12

    love-lorn soft-porn

    tenho sempre
    para a Musa
    um poema
    na traquéia
    uma prosa
    sob a blusa

    (blog da angélica freitas)

    18.1.12

    IN MEMORIAM




    Gloria Evangelina Anzaldúa

    A escritora e teórica cultural Gloria Evangelina Anzaldúa, reconhecida internacionalmente, faleceu em 15 de maio [de 2004?], aos 61 anos, de complicações relacionadas a diabetes. Autora versátil, Anzaldúa publicou poesia, ensaios teóricos, contos, narrativas autobiográficas, entrevistas, livros infantis e antologias de vários gêneros. Como uma das primeiras autoras americanas de origem mexicana assumidamente lésbicas, Anzaldúa desempenhou um papel de grande relevância na redefinição de identidades chicanas, lésbicas e queer. Como editora ou co-editora de três antologias multiculturais, ela também desempenhou um papel vital no desenvolvimento de um movimento feminista de inclusão.

    Anzaldúa é mais conhecida como autora de Borderlands/La Frontera: The New Mestiza (San Francisco: Aunt Lute Books, 1987), uma coleção híbrida de poesia e prosa escolhida como um dos 100 Melhores Livros do Século pelo Hungry Mind Review e Utne Reader.

    As obras publicadas de Anzaldúa incluem, também, This Bridge Called My Back: Writings by Radical Women of Color (New York: Kitchen Table Press, 1981), uma coleção pioneira de ensaios e poemas amplamente reconhecida pelos estudiosos como o primeiro texto feminista multicultural (...) Anzaldúa recebeu inúmeros prêmios, inclusive o prêmio American Book da Fundação Before Columbus, o prêmio Lamda Lesbian Small Book Press, o Prêmio de Ficção NEA (National Endowment for the Arts), o prêmio Lesbian Rights, o prêmio Sappho com Distinção, e o prêmio Lifetime Achievement da Associação de Estudos Americanos.

    Nascida no Vale do Rio Grande, no sul do Texas, em 1942, Anzaldúa era a filha mais velha de Urbano e Amalia Anzaldúa. Recebeu seu diploma superior da Universidade Pan American, concluiu o mestrado na Universidade do Texas em Austin, e estava em vias de completar seu doutorado na Universidade da Califórnia em Santa Cruz. Anzaldúa deixa sua mãe, uma irmã e dois irmãos, além de sobrinhas/os, sobrinhas/os-netos e uma multidão de tias/os.

    (revista de estudos feministas, vol. 12, n. 1, florianópolis, jan./abr. 2004)

    baixe aqui uma parte de Borderlands/La frontera.

    6.4.11

     Poesia  

    Gabriela Mistral foi a primeira escritora latino-americana a receber o Prêmio Nobel de Literatura, em 1945. Nasceu numa pequena cidade do norte do Chile, Vicuña no dia 7 de abril de 1889. Seu nome verdadeiro era Lucila Godoy Alcayaga. Adotou o nome de Gabriela em homenagem ao poeta italiano Gabriele D’Annunzio e Mistral como forma de expressar sua admiração pelo poeta provençal Frederic Mistral.

    Em 1907, seu noivo suicidou-se, fato que marca toda a sua vida e obra. Gabriela nunca se casou. Gabriela morreu em 1957 em Nova York, ao lado de sua companheira Dana (Doris Atkinson).

    poemas

    Eu não Sinto a Solidão
    É a noite desamparo
    das montanhas ao oceano.
    Porém eu, a que te ama,
    eu não sinto a solidão.
    É todo o céu desamparo,
    mergulha a lua nas ondas.
    Porém eu, a que te embala,
    eu não sinto a solidão.
    É o mundo desamparo,
    triste a carne em abandono
    Porém eu, a que te embala,
    eu não sinto a solidão.
    Ceras Eternas
    Ah! nunca mais conhecerá tua boca
    a vergonha do beijo que espumava
    concupiscência como espessa lava!
    Voltam a ser duas pétalas nascentes
    impregnadas de novo mel, os lábios
    que sonhei inocentes.
    Ah! nunca mais conhecerão teus braços
    o mundo horrível que em meus dias pôs
    escuro horror: o nó de um outro abraço.
    Pelo sossego puro
    sob a terra ficaram estendidos
    já, Deus meu! Seguros.
    Agora cegas, nunca mais tuas pupilas
    terão um rosto impudente e rubro
    de lascívia, nos seus espelhos refletidos!
    Benditas ceras fortes,
    ceras geladas, ceras eternais
    e duras, da morte!
    Bendito toque sábio
    com que selaram olhos, com que amarraram braços,
    com que juntaram lábios!
    Benditas ceras!
    já não brasa de beijos luxuriosos
    que vos quebrem, desgastem ou derretam!

    Canção das Meninas Mortas
    E essas pobres meninas mortas,
    escamoteadas em abril,
    as que surgiram e afundaram-se
    como nas ondas o delfim?
    Onde é que foram e se encontram,
    a custo contendo o riso,
    ou escondidas esperando
    voz de um amante que seguir?
    Diluindo-se como desenhos
    que deus deixou de colorir,
    pouco a pouco afogadas como
    em suas fontes um jardim?
    À vezes procuram nas águas
    ir recompondo seu perfil
    e nas carnudas rosas róseas
    quase começam a sorrir.
    Nos campos elas acomodam
    o talhe, o vulto quebradiço.
    e quase logram que uma nuvem
    lhes dê seu corpo num ardil.
    Juntam-se quase as desmembradas,
    quase chegam ao sol feliz.
    quase desfazem seu trajeto
    recordando que eram daqui.
    Quase anulam sua traição
    e caminham para o redil.
    e quase vemos ao crepúsculo
    o divino milhão surgir!

    O Encontro
    Encontrei-o no caminho.
    A água não turvou seu sonho,
    nem se abriram mais as rosas.
    Mas o assombro entrou-me na alma.
    E uma pobre mulher tem
    o rosto banhado em lágrimas.
    Levava um canto ligeiro
    sua boca descuidada;
    ao olhar-me se tornou
    profundo o canto que entoava.
    Contemplei a senda, achei-a
    estranha, transfigurada.
    Tive na alba de diamante
    o rosto banhado em lágrimas.
    Continuou a andar cantando
    e levou os meus olhares.
    Então já não foram mais
    azuis e esbeltas as salvas.
    Que importa! Ficou nos ares
    estremecida minha alma.
    Ninguém me feriu mas tenho
    o rosto banhado em lágrimas.
    Essa noite não velou
    assim como eu junto à lâmpada;
    Longe seu peito de nardo
    minha aflição não atinge.
    Porém talvez por seu sonho
    passe um perfume de acácia,
    que uma pobre mulher tem
    o rosto banhado em lágrimas.
    Ia só e não temia.
    Tinha sede e não chorava
    Mas desde que o vi passar,
    Deus revestiu-me de chagas.
    Minha mãe reza por mim
    a sua oração confiada.
    Mas eu terei para sempre
    o rosto banhado em lágrimas.
    Ausência
    (Tala, 1938)

    Se vai de ti meu corpo gota a gota.
    Se vai minha cara no óleo surdo;
    Se vão minhas mãos em mercúrio solto;
    Se vão meus pés em dois tempos de pó.
    Se vai minha voz, que te fazia sino
    fechada a quanto não somos nós.
    Se vão meus gestos, que se enovelam,
    em lanças, diante de teus olhos.
    E se te vai o olhar que entrega,
    quando te olha, o zimbro e o olmo.
    Vou-me de ti com teus mesmos alentos:
    como umidade de teu corpo evaporo.
    Vou-me de ti com vigília e com sono,
    e em tua recordação mais fiel já me borro.
    e em tua memória volto como esses
    que não nasceram nem em planos nem em bosques
    Sangue seria e me fosse nas palmas
    de teu trabalho e em tua boca de sumo.
    Tua entranha fosse e seria queimada
    em marchas tuas que nunca mais ouço,
    e em tua paixão que retumba na noite,
    como demência de mares sós.
    Se nos vai tudo, se nos vai tudo!

    Riqueza
    Tenho a fortuna fiel
    e a fortuna perdida.
    Uma assim como a rosa,
    a outra assim como espinho.
    Não me prejudicou
    o roubo que sofri.
    Tenho a fortuna fiel
    e a fortuna perdida.
    E estou rica de púrpura
    e de melancolia.
    Como é amada a rosa,
    como é amante o espinho!
    Tal num duplo contorno
    frutas gêmeas unidas,
    tenho a fortuna fiel
    e a fortuna perdida.
    Dois Anjos
    Não é um anjo apenas
    que me afeiçoa e guia.
    Como embalam as duas
    orlas ao mar, embalam-me
    o anjo que traz o gozo
    e o que traz a agonia;
    o que tem asas voantes
    e o que tem asas fixas.
    Eu sei, quando amanhece,
    qual vai reger-me o dia,
    se o anjo cor de chama,
    se o anjo cor de cinza.
    E dou-me a eles como
    alga às ondas, contrita.
    Voaram uma só vez
    com asas unidas:
    foi o dia do amor,
    o da epifania.
    Fundiram-se numa asa
    as asas inimigas
    e apertaram o nó
    que junta à morte a vida.
    A casa

    A mesa, filho, está posta
    em brancura quieta de nata,
    e em quatro muros que mostram sua cor azul
    dando brilhos, a cerâmica.
    Este é o sal, este o azeite
    e ao centro o Pão que quase fala.
    Ouro mais lindo que ouro do Pão
    não está nem em fruta nem em retama,
    e do seu cheiro de espiga e forno
    uma fortuna que nunca sacia.
    O partimos, filhinho, juntos,
    com dedos duros e palma branda,
    e tu o olhas assombrada
    de terra preta que dá flor branca.
    Abaixada a mão de comer,
    que tua mãe também a abaixa.
    Os trigos, filho, são do ar,
    e são do sol e da enxada;
    porém este Pão "cara de Deus"*
    não chega as mesas das casas;
    e se outras crianças não o tem,
    melhor, meu filho, não o tocares,
    e não tomá-lo melhor seria
    com mão e mão envergonhadas
    *No Chile, o povo chama ao pão de "cara de Deus"
     
    Apegado a mim
    Floco de lã de minha carne,
    que em minha entranha eu teci,
    floco de lã friorento,
    dorme apegado a mim!
    A perdiz dorme no trevo
    escutando-o latir:
    não te perturbem meus alentos,
    dorme apegado a mim!
    Ervazinha assustada
    assombrada de viver,
    não te soltes de meu peito:
    dorme apegado a mim!
    Eu que tudo o hei perdido
    agora tremo de dormir.
    Não escorregues de meu braço:
    dorme apegado a mim!

    Tradução - Maria Teresa Almeida Pina 

    9.9.10

    Um poema de Joaquim Castro Caldas

    um sms

    no tempo dos badalos, nos dentes do cocheiro as cartas eram sangues, levavam febrões de cavalos e freios nos segredos, atravessavam nevões e suores para mudar de mãos às descobertas e revoluções, eram sustento de escravos e romances de cortesãs, mote de folguedos e duelos afãs, as saias do mulherio armavam partos e escondiam medos, perguntava-se pelos amores e estimava-se por nós. hoje para chegar a tempo manda-se um silêncio a dizer morri, vivalma, nada, e deixam-se uns gemidos na bolsa marsupial dos cangurus, alguém é pago para ir lá buscá-los, não há órgãos, mãos e olhos, esporas e poros.


    joaquimr castro caldas do livro “Mágoa das Pedras”, edição Deriva, 2008
    retirado de http://pimentanegra.blogspot.com/2008/08/morreu-joaquim-castro-caldas-um-dos.html

    19.4.10

    só depois de te beijar
    uma criança te pede um beijo

    para distinguir a inocência do desejo

    joaquim castro caldas

    14.4.10

    A parte perguntou para a parte qual delas
    é menos parte da parte que se descarte.
    Pois pasmem: a parte respondeu para a parte
    que a parte que é mais — ou menos — parte

    é aquela que se reparte.

    quem de dentro de si não sai vai morrer sem amar ninguém, cacaso

    12.4.10

    chupa meu grelo
    come meu cu com um consolo
    eu gosto é de rola grossa
    fico de quatro por hobby
    tem que comer e pegar nos meus peito ao mesmo tempo
    quero gozar na sua boca, me liga
    então vamos fazer como os meninos e marcar linha sem compromisso
    procuro um casal para um casual
    lésbica, e daí?
    abre tudo pra mim na privada, gatinha

    - que engraçadinhas as meninas na porta do banheiro.

    sem título, helô

    23.3.10

    sinos

    uma mágoa gigantesca encarna depois do primeiro palavrão.
    submersos*, praguejamos até a rouquidão.
    bebemos em silêncio "como um pirata perdido". dormimos na mesma cama
    sem trocar a negligência das costas.
    de madrugada, um mesmo teto desaba sobre nossas duas cabeças. passa rápido. durante, pra não me perder, racionalizo: tomamos o cuidado de não deixar nada pra trás. nenhuma ofensa encruada.
    mas me desatina, essa liberdade.
    respeito que me desnuda, depois me decompõe, por fim, me dissolve.
    líquida, passo por entre seus dedos. mas não quero.


    da minha, da nuestra e principalmente dela mesma, camila xmitt

    16.3.10

    tem hora que cansa brincar de esconde-esconde:
    dá vontade de anunciar bem alto
    'agora vamo brincá de pega-pega?'
    aguardar que [você] se prontifique
    a caçar as outras pessoas
    ensaiar um movimento rápido
    de fuga
    e não se mover um milímetro.

    sem título, helô

    Helô que é mui esperta, vinte e poucos, disbaratinada e meio puta
    ta aqui conosco cobendo bem comidinho o cu do freud, escreve poemas e textos seus e que lhe interessam no http://manufaturadosom.blogspot.com apesar de suspeita é muito confiável
    quem aqui não fraga a camila almeida e seu maracatu ta MARCANDO, já jogay na roda um de seus poemas e dessa vez postarei mais dois - de que gosto muito.


    sobre a hostilidade


    sufocar um domingo é cruel
    mas não há ninguém que também não o seja
    sufocante e mau
    domingos não são as pessoas que odiamos
    são as pessoas que queremos pra nós todos os dias



    (sem título)


    minha pata de elefante quando sangra, mata todas as formigas da sala. também quando choro ou caminho, afogo e piso todos esses pobres insetos, que insistem nessa díspare convivência.

     

    estes e outros poemas estão dispíveis em seu disbaratinado blog http://meumaracatupesaumatonelada.blogspot.com

    8.1.10

    tudo
    será difícil de dizer:
    a palavra real
    nunca é suave

    tudo será duro:
    luz impiedosa
    excessiva vivência
    consciência demais do ser

    tudo será
    capaz de ferir. será
    agressivamente real
    tão real que nos despedaça

    não há piedade nos signos
    e nem no amor: o ser
    é excessivamente lúcido
    e a palavra é densa e nos fere

    (toda palavra é crueldade)

    poema 'fala', da poeta orides fontela

    2.11.09

    6

    Antes de tudo, o começo
    Eva, fenda, pássara obscura,
    Os teus sexos de menina, Amor
    De mulher cinge a curva dos seios
    Gozo e glosa, chana e chana.
    Chama ao relento a lágrima nua
    Esquece nos ombros lentos lábios e dentes
    Ao relento de si os caminhos do umbigo
    Coxas e clitóris, pêlo contra pêlo
    Amor, de tão cortês, é um algodoal de líquens
    E plana, suspenso, entre o sonho e o sonho.

    Wilson Bueno
    Do livro inédito “35. Poemas de Amor”
    (http://pphp.uol.com.br/tropico/html/textos/3070,1.shl)

    10.10.09

    tenho medo de fazer amor contigo, sabes
    não por medo da morte
    da destruição, da terra molhada, ou
    das longas separações, sentes demasiado pouco

    demasiado rápido cortas a ferida, dizes
    pensamento vazio e derrubas tudo
    em frente de ti, como um furacão levas tudo
    alheio e frio, como a vida

    sinto medo quando ando pela cidade
    que caio, de desmoronar-me ao nada
    que a tua pressão me comprima contra o chão

    que o rio não desagua, o sol cai,
    a cabeça não arrebenta, os sonhos não morrem,
    o medo é grande, como o mundo.

    poema sem título do esloveno, poeta e fundador da primeira revista gay da alemanha oriental 'revolver', brane mozetic

    23.9.09

    araras versáteis

    araras versáteis. prato de anêmonas.
    o efebo passou entre as meninas trêfegas.
    o rombudo bastão luzia na mornura das calças e do dia.
    ela abriu as coxas de esmalte, louça e umedecida laca
    e vergastou a cona com minúsculo açoite.
    o moço ajoelhou-se esfuçando-lhe os meios
    e uma língua de agulha, de fogo, de molusco
    empapou-se de mel nos refolhos robustos.
    ela gritava um êxtase de gosmas e de lírios
    quando no instante alguém
    numa manobra ágil de jovem marinheiro
    arrancou do efebo as luzidias calças
    suspendeu-lhe o traseiro e aaaaaiiiii...
    e gozaram os três entre os pios dos pássaros
    das araras versáteis e das meninas trêfegas.

    hilda hilst

    26.5.09

    Poeta, romancista, ensaista e colaborador (das revistas Verbum e Orígenes), o cubano José Lezama Lima nasceu nas proximidades de Havana e morreu nesta mesma cidade aos 66 anos de idade, em 1976.

    O primeiro livro publicado de Lezama Lima foi um longo poema intitulado "Muerte de Narciso" datado de 1937, depois deste vieram Coloquio con Juan Ramón Jiménez, o livro de poesias Enemigo Rumo, o poema 'Aventuras Sigilosas La Fijeza, ensaio sobre Arístides Fernández, o ensaio 'Analecta del Reloj, ensaio 'La expresión americana, ensaio Tratados en La Habana,
    livro de poesias 'Dador, a 'Antología de la poesía cubana', Órbita de Lezama Lima, o romance (que é a biografia íntima de José Cemi, intelectual cubano dos anos 30) Paradiso, a antologia 'Los grandes todos, Posible imagen de Lezama Lima, ensaio 'Las imágenes posibles, Poesía Completa 1970, ensaio 'La cantidad hechizada, Introducción a los vasos órficos, ensaio Las eras imaginarias, o romance inacabado 'Oppiano Licario' publicado depois de sua morte e Fragmentos a su imán, de 1978.

    José Lezama influenciou os escritores cubanos e porto-riquenhos da sua geração, como o poeta já postado aqui no blog Virgilio Piñera, Reinaldo Arenas, René Marqués e Giannina Braschi.

    Poesia:
    Chamado do Desejoso

    Desejoso é aquele que foge de sua mãe.
    Despedir-se é lavrar um orvalho para uni-lo à secularidade da saliva.
    A profundidade do desejo não está no seqüestro do fruto.
    Desejoso é deixar de ver sua mãe.
    É a ausência do acontecido de um dia que se prolonga
    e é na noite que essa ausência vai afundando como um punhal.
    Nessa ausência se abre uma torre, nessa torre dança um fogo oco.
    E assim se alastra e a ausência da mãe é um mar em calma.
    Mas o fugidio não vê o punhal que lhe pergunta,
    é da mãe, dos postigos fechados, que ele foge.
    O descendido em sangue antigo soa vazio.
    O sangue é frio quando desce e quando se espalha circulizado.
    A mãe é fria e está perfeita.
    Se for por morte seu peso dobra e não mais nos solta.
    Não é pelas portas onde assoma nosso abandono.
    É por um claro onde a mãe ainda anda, mas já não os segue.
    É por um claro, ali se cega e logo nos deixa.
    Ai do que não anda esse andar onde a mãe não o segue mais, ai.
    Não é desconhecer-se, o conhecer-se segue furioso como em seus dias, mas segui-lo seria o incêndio de dois numa só árvore,
    e ela adora olhar a árvore como uma pedra,
    como uma pedra com a inscrição de antigos jogos.
    Nosso desejo não é pegar ou incorporar um fruto ácido.
    O desejo é o fugidio
    e das cabeçadas com nossas mães cai o planeta centro de mesa
    e de onde fugimos, se não é de nossas mães que fugimos,
    que nunca querem recomeçar o mesmo jogo, a mesma
    noite de igual ilharga descomunal?

    13.4.09

    de viés

    O poeta modernista cubano Virgílio Piñera teve seus trabalhos proíbidos de serem publicados nos anos 70 pelo fato de ser homossexual assumido.

     




    poema
    Corpo do dia
    tradução de Cristiane Grando

    Creio na grata mansidão de uma maçã.
    E se de crer se trata, eu creio
    no dia de Deus repartido no cosmos
    como um leque que se abre e cujos raios são caminhos,
    tumultuosos caminhos
    pelos quais se despenha o homem.
    Creio na santíssima vontade de estar
    vivo onde estou, sob o fatalismo de haver nascido
    uma vez e ter-me dirigido em direção à morte,
    sítio irreal, inconcebível,
    onde é impossível permanecer.
    Creio na solidão do doce sonho erótico
    na casa rodeada pelo sonho
    e a solidão em cujo interior converso com o ar.
    Creio na virgem do retrato,
    na madona rodeada pela fonte,
    na estátua que és tu, corpo do dia,
    em que creio com todas as forças de minha vida.


    Virgílio Piñera tem dois livros traduzidos para o português 'A carne de René' e 'Contos frios'.

    3.4.09

    Família

    não ouve mais
    o trauma de
    um grito:

    a dor de
    ser parte ainda
    de uma família:

    quer morar em todas as
    casas que vê
    e imagina

    fabrício corsalette

    postado por Camila Schitt

    Assista!


























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    Desde 2008

    plano de fundo: "Emancipação" de Elisa Riemer

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