• "sexo":
  • 14.4.12

    latim do dia a dia

    VENERIA MAXIMO MENTULAM EXMUCCAUIT / PER VINDEMIAN / TOTAM / ET RELINQUET / UTRUMQUE VENTREM / INANEM ET OS PLENU CAIUS S...
    Venéria ordenhou a vara de Máximo por toda a vindima. E (isso) deixou seu ventre sujo, cheio de muco.

    MARTALIS FELLAS PROCULUM
    Marcial, tu chupas Próculo.

    Duas das i
    nscrições sexuais de uma parede de Pompéia. R
    egistradas no Corpus Inscriptionum Latinarum - CIL IV 1391 e 8841.

    8.10.11

    Kohei Yoshiyuki entre nous

     Fotografia 
























































    Essa série foi feita no breu dos parques de Tokio pelo fotógrafo japonês Kohei Yoshiyuki, voyer, entre os voyeurs

    Ensaio escrito para a revista de fotografia "Zum", pelo romancista Bernardo Carvalho

    Entre 1971 e 1979, o fotógrafo japonês Kohei Yoshiyuki fotografou a atividade noturna em três parques de Tóquio: Shinjuku, Yoyogi e Ayoama. As fotos mais perturbadoras expõem casais heterossexuais entrelaçados em encontros furtivos, jogados na grama ou atrás de arbustos, enquanto uma matilha de voyeurs os espreita e cerca, como hienas ao redor de animais feridos, aguardando o melhor momento para o ataque.


    Captadas no escuro, graças ao recurso de um filme especial e flash infravermelho, que permitiram ao fotógrafo permanecer não identificado entre seus "modelos" ou "presas", as imagens constituem a parte principal da exposição "O Parque" (2007), apresentada na galeria Yossi Milo, em Nova York. Uma segunda parte, menos impressionante, é composta de fotos de homossexuais (aparentemente menos vorazes que seus colegas heterossexuais, talvez pela ausência dos voyeurs) em Ayoama e se completa com uma série de imagens que revelam detalhes íntimos de cenas amorosas captadas por câmeras de vídeo em quartos de hotel. O que vemos aqui é a primeira parte: as fotos que representam e restituem, em princípio (mas só em princípio), a relação não consentida que sustenta e define o ato do voyeur.

    Vouyeurs

    Yoshiyuki era um fotógrafo comercial em Tóquio, no início dos anos 1970, quando, do alto do apartamento de amigos, percebeu pela primeira vez a atividade noturna em Shinjuku. Passou a frequentar os parques à noite. Ficou amigo dos voyeurs, fez-se passar por um deles, como se compartilhasse os mesmos interesses, sem deixá-los perceber que carregava uma pequena câmera.

    As fotos foram expostas pela primeira vez em 1979, na galeria Komai, em Tóquio, no escuro e em tamanho real. Cada espectador recebia uma lanterna ao entrar na galeria. O fotógrafo queria reproduzir a escuridão do parque e a experiência do voyeur. Queria que o espectador examinasse as fotos de perto, reconhecendo os corpos por partes, como os voyeurs retratados nas fotos, cercando as vítimas.

    As ampliações foram destruídas depois da exposição, e as imagens só voltaram a despertar a atenção (dessa vez também de alguns dos principais museus americanos, que as incorporaram a seus acervos) 25 anos depois, quando o fotógrafo decidiu fazer uma nova tiragem.

    Freud

    Por ironia do acaso, tive de passar por uma cirurgia de última hora no olho esquerdo na mesma semana em que havia programado para escrever este texto sobre voyeurismo. A operação me deixou visualmente inoperante por uns dias, o suficiente para que uma amiga psicanalista tivesse tempo de me enviar o texto de Freud, de 1910, sobre a "perturbação psicogênica da visão", que, com o perdão do trocadilho, me fez ver as fotos de Yoshiyuki com outros olhos.

    No texto, Freud cita Friedrich Schiller: "Todos os instintos orgânicos que atuam em nossa mente podem ser classificados como fome ou amor". Está falando da oposição, da queda de braço entre os instintos de autoconservação do indivíduo (fome) e os instintos sexuais (amor) pelo controle dos mesmos órgãos - a boca, por exemplo, que, além de órgão da comunicação e da nutrição, funções básicas para a sobrevivência, também é uma zona erógena.

    É dessa oposição que nascem a repressão e as neuroses. A cegueira histérica, por exemplo, nada mais é do que a vingança do instinto sexual contra uma repressão por assim dizer "exagerada" que lhe é infligida pelo instinto de autoconservação do eu, quando um órgão que deveria servir a uma finalidade da percepção sensorial (no caso, o olho) "começa a se comportar como um genital".

    Na "Introdução ao Narcisismo", de 1914, Freud escreve que a teoria da libido (que trata da satisfação) repousa sobre essa suposta oposição entre os instintos sexuais e a autoconservação do indivíduo. "O indivíduo tem de fato uma dupla existência, como fim em si mesmo e como elo de uma corrente, à qual serve contra -ou, de todo modo, sem- a sua vontade."

    Os instintos o levam a fazer o que ele não quer, mas também a achar que faz porque quer. Os instintos seguem caminhos tortuosos na luta para convencer o indivíduo a participar dessa corrente maior da qual ele é apenas um elo e cujo fim é a autopreservação e a reprodução da espécie. Mas os meios mascaram os fins, e o que era artimanha muitas vezes acaba tomando a dianteira sobre o objetivo. Assim, o homem é constituído por satisfações que não visam apenas à autoconservação.

    Nenhum fumante, por exemplo, acredita que o cigarro sirva para sua autopreservação, e nem por isso para de fumar. Da mesma forma, o voyeurismo é um dos efeitos colaterais dessa guerra entre os instintos, um desvio, uma perversão. O voyeur projeta e constrói no objeto do desejo o que bem entende, o seu "autorretrato" inconsciente. Ou melhor, ele transforma o desejo em objeto, eliminando todo contato físico e descartando todo fim reprodutivo. É o próprio desejo que ele espreita, encantado.

    Logo se veem as consequências em cascata de fotografar voyeurs à noite, num parque, para que em seguida espectadores possam perscrutar essas cenas em galerias, catálogos e museus.


    Lacan

     A propósito do voyeurismo, Jacques Lacan vai retomar, no célebre "Seminário 11", a ideia que Freud apresenta em "Os Instintos e Seus Destinos", de 1915: que os instintos estabelecem um circuito com o objetivo de satisfazer um estímulo, mas não atingem o objeto do desejo, apenas o contornam para voltar ao sujeito. Os instintos são constantes, de modo que satisfazer totalmente e zerar um estímulo (o que seria, em princípio, seu objetivo) também significaria paradoxalmente o seu fim, a interrupção do circuito.

    É por isso que o instinto apenas contorna o objeto do desejo. O estímulo não pode ser totalmente satisfeito. Para que não se esgote na satisfação, o instinto precisa circular. O instinto de olhar, por exemplo, "é autoerótico no início de sua atividade, pode ter um objeto, mas encontra-o no próprio corpo", escreve Freud.

    Lacan vai além ao dizer, sobre o voyeurismo, que "o objeto é o olhar". Mas esse olhar só se revela quando o voyeur é pego em flagrante: "O olhar é esse objeto perdido, e repentinamente reencontrado, na conflagração da vergonha, pela introdução do outro. Até aí, o que é que o sujeito procura ver? [...] O que o voyeur procura e acha é apenas uma sombra, uma sombra detrás da cortina. Aí ele vai fantasiar não importa que magia de presença, a mais graciosa das mocinhas, mesmo que do outro lado haja apenas um atleta peludo. [...] O que se olha é aquilo que não se pode ver. [...] A fantasia é a sustentação do desejo; não é o objeto que é a sustentação do desejo."


    Sujeito

     E é a súbita consciência da presença de uma testemunha que revela ao voyeur o circuito do seu instinto, o olhar, e lhe permite afinal constituir-se por um instante em sujeito. É uma revelação análoga que as fotos de Yoshiyuki fazem ao espectador, pego de surpresa pelas imagens que representam seu olhar refletido na voracidade dos voyeurs.

    Para o voyeur, a transgressão está no ato de ver. E as fotografias de Yoshiyuki nos põem no lugar do voyeur, num jogo de espelhos que transforma o objeto da nossa observação em nosso retrato, revelando o princípio narcisista do voyeurismo. O que torna essas imagens tão mais desconcertantes é que elas funcionam também como testemunha e consciência do nosso olhar. Somos surpreendidos na espreita da espreita.

    Quem vê corre o risco de ser visto. As fotos de Yoshiyuki nos perturbam porque desnudam esse lugar que nos parecia protegido e seguro. Elas fazem dos voyeurs as vítimas da objetiva, do olhar da câmera, e assim põem o espectador na pele do voyeur no momento do flagrante. Diante dessas fotos, o espectador também é visto e está nu. É como se elas fossem testemunhas do olhar do espectador. São elas que o observam a observá-las.

    O circuito do voyeurismo depende, portanto, de um ponto de vista inconsciente e protegido (mas nem por isso menos arriscado) que a presença de um terceiro vai romper e revelar à consciência. O voyeurismo pressupõe a invasão e a preservação simultâneas e complementares da privacidade (alheia e própria, respectivamente). Tudo tem a ver com um jogo de espelhos, uma dialética entre ver e ser visto como posições vulneráveis, transgressoras e de risco.

    O voyeur não pode ser visto, assim como sua presa, cuja intimidade ele invade com o olhar. Mas esse é também um jogo de denegações, porque a transgressão, e a excitação que dela decorre, só existe onde há risco - nesse caso, risco de ser visto. Não seria descabido pensar no ato do voyeur como um desejo dissimulado (e espelhado em sua presa) de ser visto, como nos jogos infantis em que se esconder é uma forma de chamar atenção para si mesmo.


    Privacidade 

    A própria ideia de privacidade como um direito a ser defendido ganhou corpo sob a ameaça da fotografia no final do século 19. Por outro lado, era um ponto de vista preservado e aparentemente seguro que garantia a revelação do mundo à fotografia feita fora dos estúdios, quando a câmera ganhou as ruas e passou a depender da inconsciência e da naturalidade dos objetos fotografados para representar o mundo como ele é, sem o artifício da pose.

    Nesse sentido, voyeurismo e retrato só podiam trilhar caminhos divergentes. Um é inconsciente; o outro, consciente. As fotos de Yoshiyuki subvertem essa dicotomia, fazendo o "retrato" da inconsciência do espectador por meio do flagrante diferido dos voyeurs.

    Num texto incluído no catálogo da exposição, o crítico Vince Aletti escreve que "é como se o fotógrafo tivesse entrado na cabeça de um sonhador e gravado as aparições inconstantes, bruxuleantes, antes que elas fugissem de volta para o subconsciente profundo".

    Na verdade, a cena é o próprio "subconsciente profundo", pois ela registra uma ação que só pode ocorrer sem a consciência do registro e do olhar. O que Yoshiyuki registra é a inconsciência do olhar, o desejo em ação. Como por milagre, graças ao filme e ao flash infravermelho, o flagrante não acontece na hora em que é feita a foto (os voyeurs não se dão conta de que estão sendo fotografados, de que há uma testemunha, e atribuem a luz eventual do flash aos faróis dos carros que passam). Assim o flagrante é postergado e transferido para a consciência do espectador. Nós é que somos pegos em flagrante diante da foto. Somos, ao mesmo tempo, o voyeur e a terceira pessoa, a testemunha.


    Ruído

     Tudo isso já seria fascinante se não houvesse ainda um elemento desestabilizador, um ruído, pondo todo o sistema sob suspeita. Além do ponto de vista protegido, o voyeur precisa de uma relação não consentida para agir e transgredir. Pode eventualmente até pagar para ver (como nos "peep-shows"), mas seu desejo se alimenta mesmo é da inconsciência do objeto observado.

    É o contrário da pornografia, que depende de um consentimento remunerado. Por isso, voyeurismo e exibicionismo não podem se completar (embora um leve ao outro, havendo uma passagem natural da atividade de olhar à passividade de ser olhado, assim como amar leva a querer ser amado). Mas não teria nenhuma graça nem faria nenhum sentido para o voyeur espreitar quem quer ser espreitado. O voyeurismo depende do não consentimento da vítima.

    E o que é que acontece nas fotos de Yoshiyuki? Num primeiro momento, a câmera simplesmente assume o ponto de vista do voyeur, sempre preservando a identidade (o rosto) dos indivíduos, dos corpos fotografados. Não há nada entre a objetiva e os casais no parque, que a ignoram.

    Aos poucos, entretanto, entram em cena os voyeurs, cercando os casais, atrás das moitas, esgueirando-se pelo chão, igualmente inconscientes da presença da câmera. E, de repente, quando menos se espera, começam a tocar as vítimas! E toda a lógica do não consentimento desmorona, pondo em dúvida, por tabela, a própria ignorância desses personagens em relação à presença do fotógrafo.

    Afinal, que gente é essa? Quem são esses casais que se deixam observar e tocar? E quem são esses voyeurs que não estão aí para ver, não se contentam com a visão -ou simplesmente não veem-, mas precisam tocar os objetos, como cegos? E, como se não bastasse agir em grupo sem nenhum pudor (como se o voyeurismo fosse uma atividade social, e não individual), não percebem a presença da câmera! Que voyeur é esse que tateia como cego, em grupo? Que voyeur é esse cujo objeto não é mais o olhar?

    Se o voyeur se alimenta do não consentimento da vítima, o exibicionista, em contrapartida, tira excitação de uma relação de consentimento com o espectador. O toque não tem nada a ver com voyeurismo. Não há correspondência nem complementaridade entre o desejo do voyeur e o do exibicionista, embora nada impeça que o voyeur se torne exibicionista e vice-versa.

    Para que se instaure o circuito do instinto, porém, o objeto não pode corresponder à fonte do desejo. Para o voyeur, é preciso que não haja conivência do objeto observado para que o desejo possa circular: o objeto é o próprio olhar.

    O que essas fotos mostram é outra coisa (e talvez não seja por acaso que Lacan considerasse os japoneses não analisáveis). Há uma conivência ambígua entre o voyeur e seu objeto, que, no fundo, se revela um exibicionista dissimulado em vítima. O voyeur toca sua presa, e ela continua a ignorá-lo, fingindo que não o vê (em entrevista ao jornal "New York Times", Yoshiyuki revelou que, na realidade, esses contatos nem sempre terminavam bem).


    Internet

    Com o advento da internet, dos sites de relacionamento, das redes sociais e do sexo virtual, o fetiche da autoexposição e do narcisismo foi amplificado para dimensões mundiais. O exibicionismo se impôs ao voyeurismo. Os reality shows (onde os participantes não só consentem em exibir uma pretensa intimidade ou privacidade, mas são selecionados, "contratados", para isso) confirmam essa hegemonia. A despeito das aparências, é um mundo que nada tem a ver com o voyeurismo. Não pode haver flagrante onde tudo é consentimento. É um mundo mais próximo de uma simulação da pornografia, onde já não há lugar nem para a privacidade nem para a transgressão.

    Tanto o sexo virtual como a rede social e o reality show têm a ver com a ideia de celebridade levada ao paroxismo, igualada, pelo excesso e pela generalização, a seu oposto, o anonimato. Brincar de celebridade (autopublicar-se, autoexibir-se, autopromover-se, essa redundância reflexiva) equivale a se vender, a encarnar a puta ou o pornógrafo, a expor as próprias fantasias em público, a deixar de ser sujeito para se tornar objeto. A excitação vem do consentimento.

    E é como se as fotos de Yoshiyuki anunciassem a passagem de um mundo a outro, da fome de ver à fome de mostrar, de um mundo da transgressão para a sociedade do consentimento generalizado. Ninguém é pego em flagrante, porque todo mundo se entrega antes, mostra antes.

    Não faz mais sentido falar em vigilância (nem combatê-la, nem denunciá-la, o que não significa que ela não seja mais eficaz que nunca) numa sociedade tautológica, de autoexposição voluntária. A transgressão foi anulada pela banalização do consentimento coletivo. É como se toda a sociedade de repente fizesse a passagem de que fala Freud, da atividade do voyeurismo para a passividade do exibicionismo.

    Afinal, todos têm seus minutos de celebridade, como previu Andy Warhol, e todos têm seus minutos de puta, com a desvantagem de, em geral, não receber nada por isso. E o mais perverso desse mecanismo é que a promessa de celebridade massificada resulta sempre em mais anonimato, na indiferenciação das diferenças e das individualidades. A rede vende a ilusão de que a exceção é a regra, e assim anula a exceção.

    Se a constituição do sujeito passa mesmo, como diz Lacan, pela surpresa de ser pego em flagrante, por ser visto desejando, sem seu consentimento, essa passagem se torna inoperante num mundo em que tudo é consciência prévia, onde o voyeurismo se tornou uma atividade social, de grupo, onde já não se cultiva a privacidade e onde tudo já está à vista de saída -embora por isso mesmo nada seja revelado.

    Na sua excepcionalidade, a tragédia do estudante gay que se suicida depois de ver suas imagens, gravadas à revelia por um colega de quarto durante um ato sexual e em seguida divulgadas na internet, só confirma a violência extrema desse mundo de autoexposição absoluta, no qual a consciência (o flagrante e a revelação) passa a ser insuportável. O flagrante acarreta a consciência de si, a responsabilidade e a culpa.

    Nada disso é possível quando a exposição coletiva em rede e o narcisismo massificado vêm obliterar a própria ideia de exceção e desvio individual. Os voyeurs de Yoshiyuki agem em grupo. E não deixa de ser irônico que o sexo virtual (típico desse mesmo mundo) torne mais arriscado e mais obsceno mostrar o rosto (e os olhos) do que o próprio sexo.

    Mostrar o rosto aí significa entregar ao público (ao olhar do outro) o pouco que resta de individualidade sob controle privado (do sujeito) num mundo de exibição generalizada, mas também, paradoxalmente, restabelecer o flagrante (ainda que pela contradição em termos de um flagrante deliberado) onde já não é possível nenhum flagrante.

    Revelar o olhar é a única transgressão (suicida, talvez) que resta quando tudo foi posto à vista. É romper com a passividade cega de ser visto para poder voltar a ver.

    As fotos mais perturbadoras expõem casais heterossexuais entrelaçados em encontros furtivos, enquanto uma matilha de voyeurs os espreita e cerca, como hienas

    O voyeurismo é um dos efeitos colaterais dessa guerra entre os instintos, um desvio, uma perversão. O voyeur projeta e constrói no objeto do desejo o que bem entende

    As fotografias de Yoshiyuki nos põem no lugar do voyeur, num jogo de espelhos que transforma o objeto da nossa observação em nosso retrato

    Todos têm seus minutos de celebridade, como previu Andy Warhol, e todos têm seus minutos de puta, com a desvantagem de, em geral, não receber nada por isso

    30.5.11

    Acidente de trânsito sem vítimas

    "Incomoda se eu sentar no banco da frente? Estou indo ali para a João Cachoeira, quase esquina com a Nove de Julho, sabe onde é?
    O senhor me desculpe, mas eu estou precisando desabafar. Se não quiser, nem preste atenção nas loucuras que eu vou falar. O senhor está vendo que eu sou um cara normal. Lá em casa, sempre fiz tudo direitinho. Até participar de Encontro de Casais com Cristo eu participei.
    Sempre gostei mais de sexo do que ela. Desde o começo do casamento, já dava para notar. Muitos casais são assim, o senhor sabe. Eu já estava até conformado com a ideia de passar a vida me trancando em banheiros, olhando fotos de gente que eu nunca encontraria, lendo histórias que nunca aconteceriam comigo.
    Mas, um dia, minhas fantasias venceram a minha força de vontade. O senhor sabe como é a cabeça da gente, não dá para controlar. Eu tentei resistir, mas a resistência tinha prazo de validade. Era só uma questão de tempo. A partir de certo ponto, não consegui mais me segurar.
    Logo no primeiro encontro fora do casamento, entendi que a minha vida sexual era uma porcaria. Parecia que eu tinha passado a vida toda vendo o mundo numa telinha pequena de TV, daquelas de portaria de prédio, com um bombril na ponta da antena para melhorar a recepção ruim. Sabe como é? E de repente, lá estava eu: vendo o mundo em uma TV gigante de 200 polegadas. Me senti diante de uma tela de cinema. Aí não teve mais jeito. Descobri o sexo tarde. Isso é um problema, porque o corpo ficou pedindo para recuperar o tempo perdido. Esse diabo da internet me mostrou coisa que eu nunca nem tinha imaginado.
    Comecei vendo foto pornô, mas hoje gosto das salas de bate-papo. É quase um vício. Entro nas salas nas noites de sexta, quando minha mulher vai dormir. Ela fica tranquila, porque eu estou esperando nossa filha caçula voltar das baladas dela, e dorme pesado. É aí que eu tenho mais segurança para ficar batendo papo e olhando sacanagem. ("Moacir é uma coruja, não dorme nada, fica até tarde mexendo na internet. Quando ele vem para a cama, eu já estou dormindo faz muito tempo.")
    O apelido que eu uso nas salas é MaduroMoema. No começo do ano, conversei com um cara muito legal. O apelido dele era AstroBH. O senhor sabe, um cara assim, estável, de bom nível, formado. Trabalhava com comércio exterior. Mora em Belo Horizonte, mas vinha a São Paulo umas duas vezes por mês, a negócios. Desculpe a franqueza, mas não vou ficar com frescura com o senhor. Para mim, nestas coisas de homem com homem, beleza não conta muito, não. Eu acho mais importante ter uma aparência normal e um aspecto limpo. Concorda? Não curto caras que dão pinta. Cara com brinco? Nem pensar. Tatuagem, só se for muito discreta. Se for de fora e estiver em hotel, melhor, que é mais sigiloso.
    Com esse cara, o papo rolou bem desde o começo. Primeiro, pelo Messenger, a gente teclou e trocou fotografias de rosto e de corpo. Nessa mesma noite, mais tarde, a gente conversou e fez umas sacanagenzinhas na câmera. Na última semana de março, ele veio a São Paulo, e a gente se encontrou.
    Sabe aquela insegurança que dá quando a gente entra com a amante num motel? O medo de que alguém esteja passando e reconheça o carro? O senhor sabe como é, né? É parecido. Talvez seja até um pouquinho mais forte. Mas, com o tempo, a gente racionaliza. O medo passa quase completamente.
    Lembro que, no dia em que encontrei esse cara, saí mais cedo do trabalho. Para não me atrasar, nem procurei vaga na rua. Fui direto ao estacionamento pago. Cruzei a recepção rápido, olhando para o chão, para não ter risco de ninguém me identificar. No elevador, senti meu coração bater mais forte. Enquanto caminhava no corredor, achava que eu era especial. Nem me ocorria que vários encontros semelhantes ao meu aconteceriam naquele dia em outros hotéis de São Paulo.
    Ao vivo, ele era a mesma coisa do que na foto. Me ofereceu uma cerveja do frigobar. A excitação que a gente sentiu no vídeo se confirmou, e, na segunda cerveja, acabamos nos beijando. Aí eu não vou entrar nos detalhes com o senhor porque não vem ao caso. Basta dizer que a gente transou a tarde inteira. Até hoje me lembro.
    O medo voltou no elevador. Só me senti seguro mesmo quando entrei no carro e saí do estacionamento para a rua. Disse para minha mulher que havia ido olhar um terreno em São Miguel Paulista. Tinha ficado preso na marginal por causa de um acidente de trânsito. Reclamei de dor de cabeça e fui direto para o chuveiro. Fiquei pensando no que eu tinha feito e digo para o senhor que, em geral, é melhor nem pensar muito sobre isso, porque é muito louco imaginar que você esteve pelado, tendo intimidade com alguém que nem conhece direito. E você abraça, beija, lambe, chupa. Uma maluquice.
    Esse cara, por exemplo, eu nunca mais vou ver. Uma pena que perdemos o contato. Era um cara muito gente fina. Sempre penso nele. Acho que, depois de nosso encontro, ele mudou de emprego e parou de viajar a São Paulo. Uma vez, me ligou para marcar algo, mas eu não podia falar. Depois disso, nunca mais ligou.
    Lá em casa, ninguém desconfia de que eu faço isso. Imagina. Destruiria o meu casamento. Sou cuidadoso, mas também não vou ficar paranoico. Afinal, as estatísticas estão a meu favor. Ninguém precisa ficar sabendo. É melhor para todo mundo, o senhor não acha? Até fui a uma psicóloga por causa desse problema, e ela me disse que eu criava uma vida dupla para me reinventar. Aí, eu falei: Doutora, não é nada disso, não. A senhora não compreendeu nada. Eu não quero me reinventar. Ao contrário: o que eu quero é me desinventar. O senhor me entende, né?
    Se der para encostar ali, do lado direito, logo depois da farmácia... Olha, tá certo. Muito obrigado. Um bom dia para o senhor também." 

    Escrito por Alexandre Vidal Porto e publicado no caderno Ilustríssima da FSP

    12.4.10

    chupa meu grelo
    come meu cu com um consolo
    eu gosto é de rola grossa
    fico de quatro por hobby
    tem que comer e pegar nos meus peito ao mesmo tempo
    quero gozar na sua boca, me liga
    então vamos fazer como os meninos e marcar linha sem compromisso
    procuro um casal para um casual
    lésbica, e daí?
    abre tudo pra mim na privada, gatinha

    - que engraçadinhas as meninas na porta do banheiro.

    sem título, helô

    29.3.09

    Com pai judeu ortodoxo e mãe católica, o novaiorquino Joel Peter Witkin nasceu em 1939.

    Suas obras misturam
    corpos defeituosos com símbolos sado-masoquistas, pedaços de cadáveres com ícones religiosos,


    tudo completado por um acabamento artesanal que transforma cada foto em peça única. Witkin começou a fotografar aos dezessete anos, fotografou um hermafrodita num circo de horrores de Coney Island, sua fascinação foi tanta que ali ocorreu também sua primeira experiência sexual. As referências aos clássicos da pintura estão sempre presentes nas fotos de Witkin. Ele estudou a fundo a arte religiosa, com ênfase em Giotto, e também simbolistas como Gustav Klimt e Alfred Kubin. Quando chegou a época de se alistar no exército, Witkin recebeu a missão de documentar fotograficamente as mortes acidentais ocorridas em treinamentos militares.

    "Cheguei a endurecer-me de tal forma em relação á morte que me alistei como fotógrafo no Vietnam. Depois de receber treinamento especial, enquanto esperava ser chamado para o front, tentei suicidar-me."

    Afastado do exército, voltou à fotografia artística, formando-se Mestre das Artes pela Universidade do Novo México em 1976.

    obras calcadas nos temas da dor, da morte, da repressão e da libertação sexual.





































































































    texto retirado do blog século prodigioso e editado por moi.

    26.3.09

    e o Egon Schiele





























    postado por Camila Schmitt

    Assista!


























    ­Ss##########


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    Desde 2008

    plano de fundo: "Emancipação" de Elisa Riemer

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