• "lésbica":
  • 2.4.14

    Quem dera eu soubesse que não aceitar a minha sexualidade me tornava mais frágil. 
    (Cecília Silveira)

    folhetim cecilia silveira revista 2


    folhetim cecilia silveira revista 3

    4.6.11

      Literatura  

    Diane fez um mapa no convite, a estação de trem, a primeira à direita, a ponte, descer a avenida de Stadelplatz, número 5, uma casa, três andares, música, too shy shy, hush hush, eye to eye, uma garagem aberta, um carro, um jardim, mais música, wouldn’t be good to be on your side, Uster, a casa de Diane, Céline traz botas. Eu tenho uma máquina fotográfica na minha mochila. Diane abre a porta, “Tô feliz por você ter vindo”. E Céline? Você não está feliz de ver Céline? Por que eu ? Eu, na verdade, eu estou triste de estar aqui, na casa de Uster, se você soubesse como eu estou triste, Diane, de te escutar, de te ver dançar, de estar na tua festa, de ver o trabalho que você se deu, o champagne, o buffet, os doces, triste no segundo andar quando você me mostra teu quarto, triste de ter aceitado voltar, logo, sim, estou triste de dançar com Olivier, de rir com Céline e as meninas, triste de tirar fotos de você, teu belo rosto, Diane, teus cabelos e teus olhos, como a atriz de Flashdance, tudo isso é de uma tristeza infinita, triste de não saber quem sou, triste a chorar por causa disso, na tua casa, no teu lugar, triste de atravessar teu jardim na neve, triste de te encontrar tão bonita, triste de ter te encontrado. Como isso pôde acontecer, Diane? E esta canção de Elton John, how wonderful life is, when you’re in the world. É horrível que você exista Diane. Eu devo refazer tudo pelo inverso, a infância, o que me foi dito, o homem dos meus sonhos, o príncipe e a princesa, a lenda. Eu não teria medo de fazer amor com você. Isso seria mais que com um menino. Nada faltaria lá. Seria a vida, a Vida feliz.

    (Nina BOURAOUI, La Vie heureuse, Paris: Stock, p. 60-61, 2002, trad. livre).

    21.1.11

     livros 

    Fun Home











    ­Alison no centro, seu irmão à direita e o amigo-amante de seu pai à esquerda no banco de trás; seu pai ao volante e sua mãe à esquerda em uma viagem

    Alison Bechdel assumiu sua homossexualidade para os pais quando na faculdade. Em resposta, descobre que seu pai é homossexual enrustido. O tiro de Alison saiu pela culatra; em busca de independência, vê-se tragada pelo vórtice familiar mais uma vez, passando de protagonista de seu drama particular para coadjuvante do drama de seus pais. Poucos meses depois, os pais anunciam o divórcio e, em seguida, Bruce Bechdel, seu pai, morre em circunstâncias obscuras. Alison revisita sua história, da infância até o início da idade adulta, em busca de respostas para essa figura enigmática da sua vida: seu próprio pai, dando origem à novela gráfica autobiográfica “Fun Home – Uma Tragicomédia em Família“, publicada no Brasil pela Editora Conrad em 2007.
    A autora escreve quadrinhos para fanzine desde sua juventude, e mantém a escolha dessa mídia na qual se sente mais confortável, a fim de executar em “Fun Home” um estudo extremamente íntimo de sua família e de si mesma, querendo claramente acertar as contas com uma figura importante na sua formação de caráter, ainda que ele já tenha partido. Alison investiga pequenos detalhes do caráter do seu pai, eventos marcantes da família e cria pontes que a ligam ao seu pai, uma figura sempre distante.
    Alison mostra domínio da linguagem da mídia de sua escolha. Desfia suas memórias de maneira fluida, encadeadas em um fluxo de consciência que é belissimamente ilustrado e pintado unicamente em tons verdes de aquarela. As referências literárias – da mitologia grega à literatura moderna – surgem organicamente em meio às memórias, revelando a erudição da autora e são usadas em abundância por serem uma das poucas pontes de proximidade entre pai e filha. A paixão pela literatura os une, a primeira exploração da homossexualidade de Alison se dá pelos livros. Ainda que apaixonada pelas letras, essa idolatria pela escrita não atropela o uso da imagem. Pelo contrário, a justaposição entre palavras e imagens é usada com diversas finalidades, tendo como resultado final uma poesia ímpar, sem que o formalismo da experimentação deixe-se transparecer.
    Em um poderoso momento, no final do 1º capítulo, o texto relata o distanciamento entre pai e filha, próximos fisicamente, mas distantes emocionalmente. A imagem desse quadro mostra pai e filha em posições opostas, enquanto trabalham no jardim da casa. O pai plantando uma árvore enquanto a filha segue com o trator, afastando-se do pai. Entre texto e imagem ocorre uma justaposição de idéias inesperada em sua força, palavra e imagem sublinhando e ressaltando um ao outro. Em resumo, expõe a triste relação entre eles.

























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    ­Por sua vez, um momento dramático é devidamente esticado. O momento de maior proximidade entre pai e filha é contado em quadros simétricos, menores, de forma a estudar o tempo e dar ênfase aos detalhes de cada instante e de cada frase proferida. A voz sempre presente da narradora aparece pontual e cautelosa. E o momento passa, um anticlímax emocional que se encerra como o próprio momento em si e sua continuação, com uma frustrada ida a um bar gay. Um anticlímax emocional extremamente bem construído, no qual forma e conteúdo se espelham.

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    ­­Alison formula perguntas sem respostas para relações indecifráveis, dando a obra uma aura maior que a vida. Porque a mãe, retratada como uma figura forte, se sujeita a uma condição dessas em seu casamento? Quais os reais motivos que levaram a morte do seu pai?

    Alison passeia por suas memórias, questionando-as o tempo todo e expõe-se de forma espantosa e admirável, um esforço hercúleo em busca do pai, da imagem que ela tem do pai e o legado que ele deixou.

    Seu pai partiu deixando dúvidas no ar, e viveu uma vida de acobertações e subterfúgios. Como pode essa figura paterna evasiva ser um dos pilares da criação de uma família? Dolorosamente, Alison Bechdel abre as feridas de sua gênese, humanizando o pai que sempre esteve em um pedestal longínquo. Essa é o encanto final dessa obra cingida em emoções complexas – uma filha buscando um último abraço do pai, o entendimento de seu legado, e honrá-lo.

    Texto escrito por Roger Mestriner é graduando em Imagem e Som pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)

    Assista!


























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    plano de fundo: "Emancipação" de Elisa Riemer

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